Experimentação e Investigação  

Ao longo dos últimos cinco anos, tenho encontrado o trabalho de Sérgio Niculitcheff (principalmente a pintura) em inúmeros salões por todo o Brasil, nos quais ele costuma sair garboriosamente premiado. Seria absolutamente inexato imaginar que um membro de júri, entre cinco, conduza (mesmo que sub-repticiamente) a premiação; é, pois, a obra de Niculitcheff que se premia a si mesma. Mas também seria inexato esconder a evidente sintonia que sinto com seu trabalho. A verdade é que Sérgio realiza, à sua maneira, uma síntese de qualidades que me são muito caras.

Mencionarei apenas duas. De saída, a competência. Não se pode dizer que a competência é, hierarquicamente, o primeiro dos pré-requisitos de uma obra, mas é, visualmente, o primeiro a chamar a atenção. Através da competência (entendidos aí a técnica, o saber utilizar os meios e os suportes, e também a adequação entre esses últimos e o projeto expressivo que o artista tem na cabeça), se separa imediatamente o joio do trigo. Tendo-se concentrado, até agora, mais na pintura sobre tela – da qual se afasta nesta mostra para não se acomodar e para abrir novos horizontes –, Sérgio Niculitcheff tratou de adquirir o instrumental representado por um bom olho, boa mão, boa conexão entre ambos, gesto vibrante, domínio da cor e do espaço da tela.

A segunda qualidade, bem mais rara, é a originalidade. Nem no plano de seus colegas de geração, no Brasil, nem no dos artistas internacionais que essa geração devora através de revistas, o trabalho de Sérgio se aparece com o de outrem. Mesmo na pintura, ele gerou um universo de formas escultóricas, maciças, agressivas, ora pontiagudas, ora estreladas, ora orgânicas, misturas instigantes de caramujos com engrenagens, espinhos e chamas de incêndio, ao que se soma ainda o homem, esquematizado, geometrizado, robotizado. Grande parte da pintura de Niculitcheff poderia ser vista como estudo para uma produção em terceira dimensão. Não o é porque tem asseguradas as qualidades especificamente pictóricas.

O fascínio pela terceira dimensão, e sua presença como tema na pintura são, pois, coisas antigas, que teriam fatalmente que dar frutos autônomos. Para Niculitcheff, que sempre trabalhou simultaneamente as duas técnicas, pintura e escultura se equivalem em termos de prazer pessoal no fazer, e de importância em seu projeto. Em 1987 e 88, ele participou do Salão Paulista e do Salão Nacional com peças escultóricas de razoável porte (quase 1,5 m de base), abstratas, como as quase encontram nesta exposição. O ponto de partida para todos esses trabalhos é um só: intersecções entre dois sólidos geométricos, a pirâmide e o cone. Como as intersecções obedecem a arestas imprevistas, a mistura de linhas retas e curvas acaba resultando em formas estranhas, definitivamente anti-óbvias, e de certa maneira até “abertas”. Algumas peças podem ser vistas em mais de uma posição, ou instigam o espectador a jogar com elas. Dentro das rotulações habituais, embora trabalhe com sólidos geométricos, Niculitcheff não é um escultor construtivista ortodoxo, na linha de um Amílcar de Castro ou um Sérgio Camargo. Sua organicidade e sua fantasia o distinguem, assim como a ausência de um programa a ser desenvolvido, ou de um problema plástico exclusivo.  

Decorrendo desse tipo de liberdade, vêm a utilização do material e o tratamento das superfícies. As esculturas de Niculitcheff não empregam materiais nobres: são feitas de armações de madeira ou papelão, fibra de vidro, resina de poliéster, etc., que ele molda, recorta, dobra e cola. As peças não são maciças. Jogam, assim, também com a ambigüidade de um falso peso aparente contra uma realidade lúdica e leve. Até o ato de as fazer é, evidentemente, mais livre que os procedimentos habituais de esculpir ou modelar. E a herança do pintor se revela no acabamento das superfícies. Em vez de polidas e assépticas, elas são trabalhadas com massa plástica, na qual se misturou antes pigmento. Gera-se com isso uma textura, uma tactilidade que contrasta com a geometria da estrutura, e acrescentam-se nuances de cor. Matéria e cromatismo: componentes pictóricos.

Creio que, em sua essência mais íntima, Sérgio Niculitcheff é um espírito apolíneo, isto é: no qual predominam os componentes luminosos, a calma, a busca de equilíbrio, a harmonia, e uma sedução que passa, necessariamente, também pela via do intelecto. Isso já se podia confirmar com sua pintura pouco exorcista, nunca visceral, e agora, também, com as esculturas. Não me parece ainda possível estabelecer uma diferença de qualidade entre as duas áreas; e talvez ela não surja nunca, pois Niculitcheff se anuncia como um daqueles tipos de talento capazes de transitar por varias técnicas, ser convincente em todas elas.

Mas pode-se perceber que, por enquanto, a escultura é o setor onde ele mais experimenta e investiga, sem saber ainda a que ponto chegará; as esculturas são menos “perfeitas” que as pinturas. Segundo minha intuição, Niculitcheff utilizará sempre a escultura como exercício de domínio do espaço, assim como das formas escultóricas pintadas surgirão peças tridimensionais concretas. Não sei se, no futuro o escultor ou o pintor acabará prevalecendo. Sei que, por enquanto, o momento é o da coexistência pacífica, mutuamente enriquecedora e excitante. E o resultado é articulado, integrado e de novo-original.

Olívio Tavares de Araújo                

1989