NICONES

Atualmente, a arte contemporânea atingiu o estágio que sempre almejou, sua produção se tornou acessível a todos que se dispuserem a realizá-la, democratizando os meios, suportes  e procedimentos da produção artística, todos podem fazer tudo, até mesmo pode-se não fazer nada como meio de expressão. Cabe ao artista simplesmente a atitude criadora de realizar aquilo que apetece, e por outro lado o espectador  optar pelo que deseja usufruir.

Paradoxalmente a atividade criadora encontra um dilema; que caminho estético dos vários possíveis optar? Quais regras e cânones seguir? Qual a relevância da produção? Resumindo-se em três questões básicas: o que, como e porque realizar arte.

Com o fim das vanguardas este é o verdadeiro desafio da produção artística atual; realizar uma proposta nova onde tudo pode e onde aparentemente tudo já foi feito. Daí a dificuldade de um artista criar uma obra original, preocupando-se de não recorrer na diluição da pesquisa alheia.

Os trabalhos de Sérgio nos traz estas indagações por não ser uma proposta que se enquadra comodamente nas categorias da arte contemporânea, apesar de trabalhar com uma linguagem aparentemente reconhecível se torna difícil a sua identificação com quaisquer formas da manifestação artísticas conhecidas.  No texto de Tadeu Chiarelli para o catálogo da exposição Obras Recentes de Sérgio em 1989 sintomaticamente chamava-se: “Mas que Pintura é Esta?”, e explanava entre outras questões - a dificuldade de situar a produção do artista no contexto artístico atual.

Porém podem serem feitas muitas leituras da sua obra através de vários enfoques,  que mereceriam uma análise mais profunda, tais como; o caráter atemporal e de um não lugar, o humor sutil e velado, as formas fálicas e outras mais que proponho que o observador descubra por si próprio.

Saliento aqui os temas das pinturas abordados por Sérgio e a importância da elaboração de um repertório iconográfico pessoal de elementos recorrentes, que apesar de formado de assuntos díspares num aparente embróglio temático, estabelecem um conjunto coeso facilmente reconhecível e identifica-se um vocabulário constituído de uma linguagem visual particular, é o que ironicamente chamo de nicones.

Sérgio navega confortavelmente nestes temas e assuntos com imagens comuns que considera de domínio publico, até mesmo obras de outros artistas são incorporadas como alguns  temas que considera adequados ao seu discurso, administrando-os além da mera releitura ou citacionismo, pois apropria-se dos temas e não do modus operandi. Um claro exemplo deste procedimento é uma obra sem título ( Sérgio não coloca títulos nas suas obras ) em que é representada uma peça do escultor Caito, porém é uma pintura de Sérgio, tornando-se indubitavelmente e obvia a sua propriedade autoral, que independe da origem do assunto escolhido.

 

Formalmente, Sérgio estabelece suas próprias regras de composição cartesiana, um único elemento centralizado em primeiro plano sobre um fundo neutro, sem outras formas para desviar a atenção do assunto principal que é claro e inequívoco. Curioso também é o tratamento pictórico de suas obras, pois as vezes remetem a representação do tridimensional e formas escultóricas, dada pelo tratamento de claro e escuro dos volumes, assemelhando-se a esculturas pintadas, e em outras nos remetem a gravura pelo monocromatismo e concisão do traço do desenho, tangenciando assim outras técnicas de expressão sem contudo deixar de ser pintura, e com um apuro técnico maduro que lhe é característico.

Finalizando o que se torna mais curioso é que quando conhecemos e apreciamos sua obra freqüentemente nos flagramos a identificar alguns objetos do cotidiano vistos por um enfoque niculitchefiano, modificando  nosso olhar perante a realidade visível. Somente este feito já seria o suficiente para considera-lo um artista significativo para a atualidade.

 

Cláudia Caroli

Socióloga e Aux. de pintor

Jan. 2001