MAS QUE PINTURA É ESTA?

 

O que pensar frente a pintura de Sergio Niculitcheff, que renega de maneira tão radical o gosto por uma pintura que vem transformando a auto-referência em auto-complacência elegante? Decididamente a pintura de Niculitcheff não segue por aí. E, por outro lado, não persegue a pintura intérprete dos ícones contemporâneos.

O que pensar sobre ela? Que pintura é esta não analítica, e sem nenhum índice do hedonismo que também marcou a pintura desta década?

Nela, as imagens não se configuram como puros significantes a serviço do artista e sua circunstância momentânea. Pelo contrário, na pintura de Niculitcheff as imagens surgem sempre carregadas de sentido. Tão carregadas que, num primeiro momento é impossível não intuir (pelo menos) que elas devem estar ali também no lugar de alguma outra coisa.

Essa impressão é acentuada pela maneira como o artista trabalha com as imagens. Quase sempre destacadas do fundo que não se distingue enquanto lugar determinado (um não-lugar ou o lugar), as imagens são concebidas com economia de meios, através da aderência a uma visualidade arcaizante.

Imagens há muito conhecidas, revelhas – o homem; o fogo; a roda; a torre; o vaso; o caracol – pairando agregadas ao vácuo: esse talvez seja o primeiro estranhamento que a pintura de Niculitcheff causa no espectador.

 

MAS QUE PINTURA É ESTA?

 

A maneira arcaizante das imagens, a colagem das mesmas num espaço construído como vácuo, têm seu poder de  impacto enfatizado pelo tratamento que o artista dá às cores de suas composições: sombrias, soturnas, desagradáveis.

As telas assim concebidas não são campos de repouso para o olhar e nem mesmo espaços de peregrinação pelos deslizamentos do gesto, da pincelada: são verdadeiros acidentes onde, à frente deles, olhar e mente se escancaram, o primeiro pela repulsa e pela fascinação ao supostamente já visto, a segunda pela percepção de que as telas possuem a possibilidade de latente de um sentido que não se restringe à sua materialidade.

 

MAS QUE PINTURA É ESTA?

 

A pintura de Sergio Niculitcheff, como a de outros artistas contemporâneos, reintroduz a oportunidade de pensar a pintura como espaço de representação do simbólico, questão que a modernidade sempre viu com profundas restrições.

Mas será que a pintura de Niculitcheff se configura apenas como um retorno à situação da arte conservadora do Século passado, ou mesmo daquela das vertentes reacionárias deste Século, como o Surrealismo mais vulgar ou o Novecento e outras manifestações realistas/metafóricas?

Parece que não. A pintura de Niculitcheff é portadora de uma sensibilidade que, se não se enquadra comodamente no espírito que caracterizou a modernidade, também não se encontra presa a uma estética pompier e nem àquela do Surrealismo pueril de Dali e seus epígonos.

Nas (melhores) pinturas de Niculitcheff as imagens normalmente não desempenham ações dentro de cenas determinadas, passíveis de serem entendidas como alegorias facilmente decodificáveis.

Elas não operam no mesmo sentido das de Carlo Maria Mariani que, rompendo a modernidade (e tudo o que ela significa) e colocando-se dentro dea estética neoclássica, parece rapidamente se auto-consumir na confecção de alegorias satisfeitas com suas próprias frivolidades.

As pinturas de Niculitcheff trabalham quase sempre com imagens-símbolos entendidas como blocos puros de sentido. Como se o artista em suas telas estivesse fazendo o reconhecimento dos símbolos mais persistentes na história do homem desde o passado até o presente, reinterpretando-os, e lançando-os ao devir dessa mesma história.

 

MAS QUE PINTURA É ESTA?

 

A pintura de Niculitcheff parece ganhar interesse maior quando o artista acopla dois ou mais desses blocos de sentido. Os símbolos não se unem formando uma cena, estejam eles em campos pictóricos distintos ou num mesmo. (Quando dois símbolos se apresentam unidos estão formalmente unidos, apontando então para uma outra simbologia: caso vaso-caracol, ou do homem-vaso, por exemplo).

Este processo de tratamento da composição (chamado paratático) potencializa ainda mais o poder de significação das imagens do artista, já que não indica um caminho único seguro (e portanto restrito) para a interpretação da composição.

 

MAS QUE PINTURA É ESSA?

 

Como individualizar a pintura de Niculitcheff no plano da pintura contemporânea, uma vez que ele não é o único artista a trabalhar com a parataxe?

O que parece interessar na produção do artista é que ele é o único a proceder nesse sentido através da utilização de símbolos extremamente significativos e familiares para a humanidade, enquanto seus colegas (muito na esteira de David Salle) operam basicamente com puros significantes, ou seja, com imagens já esvaziadas de significado, e que apenas poderão voltar a ser portadoras de sentido, caso o espectador esteja disposto a dar-lhes algum.

Já em Niculitcheff as imagens não estão despidas de nada. Pelo contrário. Daí, justapostas a outras e tratadas formalmente da maneira como o são, ampliam de forma quase aterradora a possibilidade de significação das composições. Pensadas por este viés, as pinturas de Niculitcheff, mais estendidas como campos de significação pura, autônomos, quase que totalmente livres da necessidade da presença do espectador para aciona-los.

 

MAS QUE PINTURA É ESTA?

 

Tadeu Chiarelli

Agosto/Setembro de 1989