Sergio Niculitcheff

 

A Galeria Brito Cimino preparou este ano, entre os meses de abril e maio, uma exposição do pintor paulista Sergio Niculitcheff. A Galeria nos brindou ainda com um belíssimo catálogo que traz as fotos das obras do artista e um texto de Aracy Amaral.

A primeira curiosidade sobre as obras expostas é que nenhuma delas tem título. Afinal, porque o pintor nos priva deste dado? Kandinsky ousou denominar várias de suas obras abstratas de “Composição”, o que não quer, à primeira vista, dizer muito, ou querendo sugerir que suas obras eram compostas como temas musicais e que assim deveriam ser entendidas. No caso de Niculitcheff, creio que o seu interesse é nos lançar diretamente para dentro da pintura, sem nenhuma sugestão pré-estabelecida que possa nos fazer perder o prazer e a compreensão plenamente visual de seu trabalho.

Outra curiosidade é que o artista elege como “tema” de suas pinturas a representação absolutamente solitária de objetos industriais (apontador, carretel, foguete, colchão, etc) e/ou naturais (conchas, coco, sementes, árvore, etc.) – deslocados, tanto uns com outros, de seu habitat original.

Niculitcheff nos faz pensar imediatamente num pintor distante no tempo, o neoclássico Jacques-Louis David (1748-1825), mas que tem com ele uma relação muito próxima no que diz respeito à concreção de seu trabalho pictórico. Vejamos o caso de obras de David como O Assassinato de Marat ou Madame Recamier. Ao fundo da tela aparece uma camada de tinta, cuja cor varia pouco em sua gradação, servindo como fundo que apenas reforça a aparição da figura única que será o tema de cada obra, no caso das duas telas citadas, Marat e Recamier.

Embora o procedimento técnico seja similar, estamos em outro tempo e Niculitcheff se propõe chamar a atenção para um grupo de objetos que, apesar de fazer parte do nosso mundo cotidiano, passam quase, ou se não, desapercebidos por nós. Para o artista estes objetos esquecidos por nossos olhos, calejados de tanto vê-los (ou não vê-los), têm uma poética própria que só pode ser restaurada pela visibilidade total de sua aparição. Por isso o procedimento de destacá-los sobre um fundo quase que uniforme, por vezes manchado, que os trazem diretamente para nossa visão em sua forma única. Dessa forma não há escapatória para nossa relação com eles. Novamente terão que ser percebidos como se estivessem acabados de nascer para nós. A solidão a que Niculitcheff os condena também faz parte desta estratégia da comunicação virgem.

E se estes objetos, em alguns casos, se relacionam com outros, estranhos em sua comunicação (não creio que haja uma intenção surrealista neste caso), como no caso de uma escada que perfura uma nuvem, ela indica também um pensamento corriqueiro, mas perdido em nossa mente, o da ligação entre os objetos que construímos e nossa ansiosa busca metafísica.

O que importa ao artista é dotar cada objeto de uma visibilidade pura, restaurando-lhe o sentido perdido, sua existência poética, sua presença enquanto forma.

Jardel Dias Cavalcante

 Campinas, 27/12/2004

Extraido de; www.digestivo cultral.com