Arte e Arquitetura: questão de cumplicidade

No mundo contemporâneo, o crescente e diversificado processo cultural socializou o espaço vivencial, conferindo-lhe imagens que apontam como o lugar onde o indivíduo veste-se no povo, na multidão e expressa-se em público. Seus anseios, valores, ritos, enfim, suas emoções urbanas colidem na mescla de imagens públicas e privadas, no intimo e no depravado, nos inúmeros mundos da vedação e do permissível, nos signos de solidão individual e do domínio público. Enfim, o personal cedendo ao coletivo. A imagem da cultura urbana, da sociabilidade, tomando o seu espaço.

O reflexo imediato disso na arte contemporânea pós-vanguardista é verificar que cabe ao artista o desafio da atitude criadora de fazer aquilo que julgar interessante. Todavia, um dilema ao espectador: que caminho estético, que regras, que produção deseja ver? É uma mostra desse desafio que podemos ver na exposição “Redesenho por três artistas” que apresentamos na FAU.

 Sérgio Niculicheff faz indagações com uma linguagem visual incomum e imagem comum de domínio e repertório público, obras de outros incorporadas e administradas além da mera releitura. Obras muitas sem títulos (ele considera que suas obras prescindem necessariamente de títulos) propondo que o observador descubra por si só. Sutileza à parte: assuntos com imagens genéricas, ícones do tempo e do lugar comum, irônicos ícones.

Curiosa expressão do cotidiano em tons claros e escuros dos volumes, modificando nosso olhar perante a realidade visível: ossos voadores, cubos em expressão quadrada, tampa de caneta, prendedores de roupa, foguete, pinguim de geladeira, pneu, apito, vaso, caracol, tenda, motocicleta, fogo... Revisitação mágica alegórica no tempo e no espaço de objetos vistos em qualquer lugar em busca da essência da forma.

Issao Minami

Jornal da USP, maio de 2002.