Tadeu Chiarelli entrevista artista plástico:

SERGIO NICULITCHEFF

  Data: 11 de dezembro de 1986.

 

P – Bom, Sergio, gostaria que você começasse explicando como é pintar em São Paulo em 1986.

R – Para mim, a pintura é uma coisa particular. Pintar independe de estar em São Paulo, em qualquer lugar.  Quer dizer, o fato de estar em São Paulo envolve outras coisas... São Paulo é interessante em termos de pintura, porque é um polo cultural. Aqui vejo muita coisa, tenho muitas informações e a própria cidade acaba refletindo no trabalho.

P – Você nasceu aqui, sempre morou aqui?

R – Eu nasci aqui, mas por causa de meu pai que é médico, morei em vários lugares, principalmente no Paraná.  Voltei para cá com 12 anos. Mas foi exatamente nesse período que comecei. Quer dizer, que descobri que eu tinha uma certa facilidade para desenho, pintura, essas coisas. Foi quando voltei para São Paulo que comecei a me desenvolver nesta parte artística.

P – Você sempre pintou?

R – É, como toda criança, sempre desenhava, fazia umas bobeirinhas, mas foi a partir dos doze anos que comecei a me interessar.  Depois, quando fiz quinze anos, entrei para o IADE, Instituto de Artes e Decoração que é um colegial técnico de desenho.  A partir daí comecei uma certa formação mais acadêmica... Foi nesse período também que comecei a mandar trabalhos para salões por volta  de 76.

P – Se a gente for pegar qualquer documentação sobre a sua trajetória artística, é muito visível o fato de você ter começado  a participar  de salões e exposições ainda muito novo.  Como surgiu essa necessidade?

R – Como comecei a desenvolver meu trabalho mais seriamente quando tinha 15, 16 anos, o processo foi mandar trabalhos  para salões, tentar fazer exposições, essas coisas.  Naquela época já possuía uma preocupação profissional.  Tanto é que fazia um colegial técnico de desenho, procurando desenvolver...

P – Ou seja, já direcionando para questão da arte. E você participava de qualquer salão, ou tinha algum tipo de...

R – Tinha alguns que naquela época eram interessantes e aqui perto de São Paulo.  Eram os mais acessíveis.  Lembro que mandava muito para o salão de Santos, que naquela época era um salão importante.  Mandei também para o Salão Paulista, mas naquela época nunca cheguei a participar.

P – E veio a participar do Salão Paulista...

R – Este ano foi a primeira vez que participei desse Salão... As três vezes que mandei minhas telas para lá, fui recusado...

P – E este ano você não entrou, como ganhou o prêmio. É um bom sinal... E como eram as exposições que você fazia? Como eram tramadas?

R – Basicamente, no início eu só mandava para salões. Só cheguei a participar de coletivas, mas lá em Santos mesmo, por causa do Salão. Eu tinha ganho o prêmio e eles me convidaram para fazer  uma exposição coletiva com os premiados...

P – No IADE você teve aula com algum artista que o marcou mais profundamente?

R – Lá eu tive aula com alguns professores legais, mas não tinha nenhum artista, assim, importante. O único artista que deu aula para mim foi o Odair Magalhães.  Naquela época ele também tinha atividade bastante grande em salões.  Também Ettore Bettone. Mas o Iadê foi importante para mim porque me deu uma noção de História da Arte, uma visão maior sobre a Arte.  E dos materiais e técnicas, também.

P – E desde aquela época você fazia só pintura, ou não?

R – Não. Lá eu estava começando a trabalhar com desenho. Daí, eu por conta própria, fora da escola, comecei a tentar trabalhar com pintura, com tinta e óleo.  Fui desenvolvendo.  Eu sempre tive uma atividade paralela a escola.

P – E eram essas pinturas que você mandava para os salões...

R – Eram essas pinturas.

P – E, terminado o Iadê você foi fazer Belas Artes.

R – Eu entrei na Faculdade de Belas Artes e continuei.

P – Foi uma opção fazer a Belas Artes, ou você prestou outras faculdades?

R – Só prestei a Belas Artes. Existiam outras escolas até melhores, mas preferi a Belas Artes, primeiro porque era mais barata e também porque o curso era de três anos, enquanto as outras ofereciam cursos mais demorados. Eu entrei na Belas Artes, mas continuei trabalhando para mim, com meu trabalho sempre à parte.

P – E você sentia na Belas Artes algum clima propício à produção artística?

R – Sentia, mas era mais a nível dos alunos, não dos professores.  Não era a escola que passava isso.  Eram os próprios alunos que se enturmavam em grupinhos, trocavam idéias...

P – Nessa época você desenvolvia um trabalho ligado ao Hiper-Realismo. Como foi esse caminhar dentro da sua produção?

R – É uma coisa meio complicada, porque quando comecei no Iadê fazia uma coisa meio surrealista, uma coisa que eu chamo de “surrealismo juvenil”, bem de adolescente...

P – É verdade que todo artista antes de atingir sua própria linguagem é ou “expressionista”, ou “surrealista juvenil”?

R – Não sei, mas acho que o “surrealismo juvenil” é bem presente, porque numa certa fase da adolescência a moçada gosta muito de rock, e daí surgem essas tendências... É uma linguagem, mesmo.  Eu passei por essas fase.  Daí, quando comecei a mandar para salões já fazia uma coisa um pouco mais dentro de uma linguagem atual, na época o Hiper-Realismo e fiquei uns bons anos com essa linguagem...  

P – Qual era o procedimento nessa fase Hiper-Realista? Você fotografava...?

R – É eu trabalhava exclusivamente com fotografias. Fotografava as cenas que eu queria, selecionava, depois quadriculava a foto, passava para a tela, depois executava.  Mas nem sempre era fiel à foto, não era um Hiper-Realismo radical.  Eu interferia em alguma coisas...

P – Em que?

R – Ou alguma cena ou fundo que não me interessava. Eu sempre modificava. Foi um processo lento. Chegou uma época em que incluía formas geométricas na paisagem, modificando o clima. Já não era mais Hiper-Realismo, era uma coisa..., um realismo fotográfico, mas tendendo mais para o Metafísico, com um clima diferente...

P – E como...

R – Bom, e daí chegou uma fase que parei de pintar e comecei a trabalhar mais com desenho.  Desenhos pequenos, coisas completamente variadas: objetos pequenos e muito desenho de observação.

P – Isso ainda na Faculdade?

R – Quando já estava terminando.  Trabalhei muito com desenho, naquela época. Daí concluí a faculdade e uns sete meses depois viajei para a Europa.

P – Isso em que ano?

R – Eu me formei no final de 80, daí em setembro de 81 viajei para a Europa. Passei um ano, lá. Aí meu trabalho virou completamente...

P – Você ficou em algum país em especial?

R – Fiquei quatro meses na Espanha; fiquei sete meses em Paris. Depois fiquei um mês viajando pela Itália, antes de voltar.

P – E como foi essa “virada”, a qual se referiu?

R – Na verdade, quando viajei, meu trabalho já estava mudando.  Tinha deixado o Hiper-Realismo e fazia uns desenhos meio conceituais... Daí, lá em Madrid ainda fiz um pouco de desenho e depois comecei a pintar com acrílico sobre papel.  Eram trabalhos completamente abstratos, geométricos...

P – E como você explica essa mudança? Alguma coisa despertou você para esse caminho?

R – Acho que foi simplesmente uma procura, vontade de mudar... Mas uma coisa que me impressionou muito em Madrid, foi uma exposição de Picasso, que comemorava os cem anos de seu nascimento. Pode ver todos os momentos da sua obra – inclusive os quadros mais importantes – me impressionou bastante... Percebi em Picasso uma liberdade enorme...

P – E isso de alguma forma mobilizou você?

R – É, fiquei impressionado, porque até visitar aquela exposição minha informação vinha muito através de livros. É diferente ver de perto praticamente toda a produção de um bom artista. Aquilo me causou impacto.

P – E a partir daquela exposição, você sentiu uma mudança visível na sua pintura?

R – No momento a exposição não refletiu no trabalho que vinha desenvolvendo, mas senti uma mudança  na minha percepção da arte, na minha visão do que é pintar, do que é uma obra de arte.

P – Por volta de 81 já estava acontecendo aquilo que foi chamado depois de “volta a pintura”, principalmente via Itália e Alemanha. Você chegou a entrar em contato com essa produção?

R – Eu via muita coisa, mas naquela época não tinha essa coisa cristalizada de “volta a pintura”.  Eu pintava porque pintava, sempre pintei... Vi tudo o que estava sendo exposto, lá. Inclusive, já no Brasil, quando estava vendo uns catálogos que trouxe, percebi que tinha ido ver uma mostra de um dos artistas da Transvanguarda (Georg Baselitz)... Mas para mim, na época, tinha passado desapercebido, acho que porque não era aquilo que estava me interessando.

P – Você retomou sua produção em Madrid. Chegou a expor lá, por acaso?

R – Cheguei. Ciro Cozzolino – que foi comigo – e eu, nos hospedamos na Casa do Brasil, em Madrid.  Lá tem um espaço muito bonito para exposições.  Então, trabalhamos uns três meses e meio e expusemos.  

P – Naquele momento você não trabalhava mais com o Hiper-Realismo...

R – Não.  Naquela exposição mostrei muita coisa: trabalhos que tinha levado daqui, desenhos que fiz lá, umas pinturas...

P – E essas pinturas já eram diferentes...

R – Eram mais geométricas... Outra coisa importante que aconteceu em Madrid foi nosso contato com José Leonilson e Luiz Zerbini, que estavam lá, na época.  O trabalho deles me influenciou bastante.

P – Em que sentido?

R – Pela liberdade de expressão, o despojamento dos materiais...

P – E em Paris, como foi?

R – Bom, Ciro e eu fomos para Paris.  Lá continuamos produzindo.  Fiz pinturas, só que sobre papel... Fiz uma série de trabalhos lá em Paris e cheguei a expô-los, junto com outros artistas.

P – Quais?

R – O Ciro e eu com Pinturas; o Hipólito Rocha com gravuras, e o Fernando Chaves com fotos. A exposição foi no Espaço Latino Americano... E no período que morei lá em Paris, trabalhávamos numa galeria.  Fazíamos de tudo: desde a pintura das paredes, até o serviço de office-boy. Trabalhávamos com artesões também, para o Luiz Piza...  

P – Era uma forma de vocês ganharem uma grana...

R – É, e fizemos isso um tempão... Aí fui para a Itália turistear durante um mês, e voltei para o Brasil.

P – E como foi voltar para São Paulo, depois dessas experiências?

R – É... Fiquei um pouco deslocado, mas estava com muita vontade de trabalhar... Continuei trabalhando, querendo expor, até que o Sergio Romagnolo me convidou para participar de uma exposição.

P – A “Pintura como Meio”?

R – É. Eu já conhecia o Romagnolo do Iadê, onde a gente estudou junto. Eu havia procurado lugares para expor, mas ninguém estava a fim de individuais, só coletivas... Daí juntamos o Romagnolo, eu, Leda Catunda, Ana Tavares e o Ciro e propusemos uma coletiva para Aracy Amaral, que era a diretora do MAC-USP, na época.  Ela topou e a gente fez a exposição, em 1983.

P – Essa exposição marcou sua carreira, de alguma forma?

R – Acho que marcou. Não só para os artistas que expuseram, mas para muita gente, também. Eu pessoalmente não esperava que fosse ter  uma repercussão tão grande... Todos falavam sobre o fato dos trabalhos não terem chassis... o que foi uma coisa completamente casual... Foi muito importante aquela exposição.  Inclusive, teve gente que começou a pintar depois dela...

P – Pessoas mais novas?

R – É, elas sentiam muita afinidade com os trabalhos expostos.

P – E como eram seus trabalhos, naquela exposição?

R – Eram abstratos, muito líricos...  

P – Da abstração geométrica para a lírica... Naquela época você passava por um período contínuo de mudanças, não é?

R – É, e até hoje estou mudando.

P – E para você é tranqüilo ficar mudando bastante?

R – É como uma necessidade. Se estou fazendo um trabalho e de repente sinto que aquilo esgotou, que encontrei uma fórmula, sinto vontade de mudar.  

LADO B:

P – Essa preocupação do artista ter uma característica marcante, típica, nunca foi um problema para você?

R – No meu caso – não posso falar pelos outros – sinto falta de coisas novas, de modificar o processo e por isso busco outras possibilidades.  Quer dizer, às vezes  nem busco, às vezes elas surgem e quando me dou conta já mudei, já estou em outra.  

P – Sergio, a “Pintura como Meio”, junto com uma ou outra exposição foi um marco na arte do Brasil, nesta década, na medida em que colocou uma geração de artistas extremamente jovem no circuito.  Como você encara essa possibilidade que foi dada à sua geração?

R – Antes de responder, queria lembrar que antes da “Pintura como Meio”, houve a exposição do Leonilson no Thomas Conh, no Rio, e na Luisa Strina, aqui em São Paulo. Lenilson foi a ponta de lança dessa geração... Mas,  voltando à pergunta, acho que o que aconteceu era natural, porque a arte que se fazia nos anos 70 era meio devagar, não surgiam coisas interessantes.  A arte nos anos 70 estava estrangulada... Então, tinha que acontecer algo, porque estava um marasmo muito grande.  Acho que foi necessário tudo isso.  E acho importante que essa modificação do circuito tenha se dado dessa maneira, com vários artistas, com muita movimentação...

P – A “Pintura como Meio” significou para você alguma modificação em termos de vendagem do seu trabalho?

R – Bem,  eu nunca tive relação com o mercado, sempre dei aulas, mantive outras atividades... Inclusive até hoje não tenho nada com o mercado.  Vendo meu trabalho só ocasionalmente.

P – Quer dizer que para você, pelo menos, aquela mostra não significou ampliar suas expectativas de venda...

R – Não. Também acredito que um dos motivos para eu não vender muito, é o fato de eu não ter um processo linear de trabalho.

P – E você acha que essa é uma necessidade mercadológica?

R – É , o mercado pede sempre a mesma embalagem para o mesmo produto. Por isso  meu trabalho não deve agradar muito ao mercado...

P – Você disse que dava aulas...

R – Quando estava na Faculdade dava aulas de pintura num curso livre lá em São Bernardo do Campo, e em seguida passei a lecionar Educação Artística na rede estadual...

P – E você continua dando aulas até hoje?

R – Faz um ano e meio, dois que não dou aulas, que vivo de alguns trabalhos que consigo vender.

P – E no período em que você dava aula, o contato com os alunos e com a produção deles de alguma maneira informava seu trabalho plástico?

R – Acho que meus trabalhos como artista e como professor não têm muitos pontos de contato. Inclusive, gosto de separar essas coisas duas atividades.

P – Você gosta de dar aula?

R – Gosto, mas desde que não seja minha única atividade.  Para mim, mais importante é a pintura.

P – Sergio, em sua produção mais recente noto o surgimento de algumas imagens, alguns signos mais fáceis de se decodificar.  De onde eles surgem?

R – Não posso dizer onde surgem, porque de um tempo para cá meu trabalho vem num processo quase de improvisação.  A imagem surge a partir do que estiver passando pela minha cabeça, na hora. Principalmente esses trabalhos em esmalte sintético são muitos improvisados, não faço estudo para a maioria deles...

P – Você não faz projetos para suas pinturas?

R – Para algumas eu faço uns desenhos em acrílico sobre papel, mas sem o menor bloqueio.  Depois escolho os que considero formalmente mais interessantes e passo para as pinturas.

P – E para cada pintura, quantos desenhos preliminares você faz?

R – Uns vinte estudos. Mas isso é relativo.  Por exemplo, fiz uma série de trabalhos sobre folha de jornal.  Eles são um meio termo entre estudos e obra acabada, porque eu ia fazendo sem o menor planejamento.  Na verdade eu os considero como obras, não estudos, mas todos surgiam completamente improvisados, sem nenhum planejamento...  

P – E no ato da realização dos estudos, ao ser ver, não existe nenhum tipo de procedimento racional...

R – É...

P – E a seleção vem depois?

R – É, quando tem seleção, né? No caso desses  trabalhos dos jornais teve pouquíssima seleção.

P – Sim, nesse caso não teve, mas normalmente, você faz uma seleção posterior sobre o qual você vai ampliar.

R – É estou dizendo que não tem uma coisa mais racional, mais intelectual, mas sempre tem né? O repertório de imagens que eu uso, por exemplo, são imagens que eu sempre gostei, que estão na minha cabeça.  Quando vou pintar, elas acabam aparecendo... Existe um motivo para eu pintar uma vitória-régia e não um ferro de passar roupa, não é mesmo? Sem dúvida, tenho mais afinidade com um tipo de imagem do que com outro...

P – E você hoje colocaria seu trabalho em alguma tendência contemporânea?

R – Eu nunca vejo o trabalho dos artistas por correntes, tendências, sabe? Não gosto de colocar o trabalho dos artistas em “gavetas”... Inclusive essas correntes que surgiram mais recentemente, até hoje não sei identificá-las muito bem.  Para mim, o que interessa é o trabalho do artista, especificamente.

P – Mas de qualquer maneira existe uma semelhança entre o seu trabalho e os de outros artistas atuais.  Quando você coloca, por exemplo, a questão de não se sentir preso a nenhuma característica determinada, é uma postura compartilhada também por outros artistas, demostra uma certa afinidade...

R – Mas é uma afinidade não em termos de movimento, de escola, mas outra afinidade... talvez uma afinidade filosófica.

P – Sergio, estou reparando que você anda produzindo objetos, uma tendência que percebo em outros artistas vindos da pintura e do desenho, com quem tenho conversado.  Como surgiu essa nova situação para você?

R – No meu caso, surgiu de repente. Senti que devia fazer objetos, mesmo, e não ficar pintando objetos na tela... Mas estou sentindo muita dificuldade com os materiais...  

P – Você teve formação em escultura?

R – Não, nenhuma. É por isso que estou me sentindo muito limitado.  Trabalhar com objeto é o trabalho ao cubo da pintura...

P – O que significa para você sentir dificuldade com o material?

R – Eu desconheço os materiais; nunca sei o que devo usar para fazer o objeto que estou querendo... Sempre tenho que descobrir sozinho. Mas, mesmo assim, quero fazer mais alguns objetos... Preciso pesquisar para ver qual o material adequado para o tipo de coisa que estou pretendendo...

P – Voltando um pouco à sua pintura,  o fato de você trabalhar sobre papel, é uma preferência momentânea, ou você sempre gostou?

R – Bom, trabalhar com papel eu gosto, sempre gostei de trabalhar em cima de papel.

P – E sempre trabalhou?

R – Sempre trabalhei, mesmo quando lidava com pintura a óleo, paralelamente fazia alguma coisa em papel.  Gosto muito de trabalhar em papel.  Agora, no caso desses trabalhos em esmalte sintético sobre papel canson, surgiu de uma necessidade econômica, porque é um material mais barato, mais acessível.  Se de repente, eu fosse fazer um mesmo trabalho com tinta acrílica em cima lona ia gastar umas vinte vezes mais.

P – Sei...

R – Quando trabalho com material mais caro, que tenho pouco, acabo limitando minha criação, pois tenho que economizar.  Por isso optei por esse material que é mais barato. Por outro lado, gosto do resultado plástico do esmalte sintético. Acho uma tinta muito interessante de ser trabalhada...  

P – Em que sentido?

R – Bom, eu acho as cores muito bonitas, e a tinta – por ser brilhante – é bem saturada.  A secagem relativamente rápida que ela têm possibilita você trabalhar mais depressa. Quer dizer, gosto de fazer um trabalho mais rápido, não gosto de pintar um pouco hoje, um pouco amanhã.  Gosto de um processo...

P – Quanto tempo você demora para fazer um trabalho de mais ou menos dois por dois?

R – Isso varia, depende de como eu soluciono o trabalho, né? Tem trabalhos que num dia eu soluciono, tem outros que pinto, demoro dois dias, três dias, não estou satisfeito, repinto de novo até acertar, até achar o que deve ser o trabalho.

P – Mas você não tem aquele procedimento de ficar meses mexendo num mesmo trabalho?

R – Não, não..

P – Nesse sentido o esmalte funciona bem...

R – É, inclusive porque ele tem um poder de cobertura muito bom.  Então se tiver alguma coisa que você queira modificar, a secagem é rápida, você pode modificar, e a cobertura não interfere.

P – E a aceitação desse trabalho em esmalte sintético sobre papel, como é?

R – Olha, sinto um preconceito mais por ser papel, e não tanto por ser tinta esmalte sintético.  As pessoas tem um certo preconceito contra papel. Se for trabalho grande eles acham que tem que ser em tela. É a tradição da pintura a óleo que impera, incontestavelmente.  Por isso as pessoas não aceitam, acham que papel não é tão nobre. Isso em termos de mercado, porque em termos de arte tanto faz, não é?

P – E como você vê o fato de ter sido premiado no Salão Paulista deste ano?

R – Acontece que salão não faz parte do mercado.  As leis que o regem não são as mesmas do mercado. Inclusive, acho que o salão deveria influenciar o mercado...

P – E na sua opinião não influencia?

R – Na verdade, quem vai selecionar os trabalhos e premiar, não está preocupado com o mercado, e sim com a obra.  Essas pessoas não tem preconceitos com materiais e técnicas. Quer dizer, o mercado é uma coisa e o salão é outra.  O fato de eu ter ganho prêmios em salões não quer dizer que eu me dê bem no mercado. As coisas são distintas.  Às vezes até, o mercado é um lugar completamente à parte da arte.

P – Você ficou surpreso com sua premiação?

R – Para falar a verdade, fiquei, porque a gente nunca sabe o que vai acontecer.  Já fui recusado duas vezes no Salão Paulista e, de repente, sou premiado.  Isso também já aconteceu comigo no Salão Nacional.  Então, salão é sempre uma caixinha de surpresas...

P – Executando então a questão de vendagem das obras, existe algum outro tipo de repercussão em termos do ambiente artístico.  Você fica com certo prestígio, né?

Não em termos de mercado, mas em termos da comunidade artística...

P – Seria como se você tivesse subido de status?

R – É. Inclusive, todo mundo fica conhecendo seu trabalho, dentro da comunidade.

P – Isso significa mais convites para exposições, por exemplo?

R – Não, o que acontece é que você acaba conhecendo mais pessoas que gostam do seu trabalho... Ganhando um prêmio em salão, você vai expandindo... Você se torna um ilustre desconhecido...

P – Como é que você vê seu trabalho daqui para frente? Você falou que em 86 só pintou em esmalte sintético sobre papel, e me pareceu que você, então daqui para frente vai fazer outro tipo de trabalho.  Como é isso? A coisa fica só a nível de uma pesquisa de materiais, ou o desenvolvimento da sua proposta está pedindo os outros materiais.

R – Acho que em relação a esse material, o esmalte sintético, esgotei um pouco o que queria desenvolver, e agora estou retomando a tinta acrílica sobre pano. Agora, se em termos de materiais pretendo trabalhar com tinta acrílica sobre pano, a nível de imagens ainda não sei o que vai rolar, porque eu não planejo isso.  Voltei há pouco tempo a trabalhar com tinta acrílica e ainda estou um pouco atrapalhado, porque fazia muito tempo que eu não trabalhava com esse material e ainda estou apanhando um pouco para me sentir à vontade com ele, mas não sei o que vai rolar...

P – Como você se sente quando muda de material?

R – Quando se trabalha muito tempo com um certo material, você se condiciona a tirar uns efeitos que o caracterizam.  Se você muda, tem que adaptar ou redescobrir outros materiais de pintar.

P – Em relação ao próximo ano, você tem alguma exposição marcada?

R – Tenho uma coletiva para o ano que vem e uma individual.  Quero muito fazer uma exposição individual numa galeria comercial...

P – Você acha importante?

R – Eu acho importante.

P – Em que sentido?

R – Bom, porque numa galeria comercial, muitas pessoas vão ver seu trabalho, não é? É diferente de expor num espaço alternativo que é muito limitado.  O alcance do trabalho é bem limitado.  Uma galeria comercial já tem um alcance maior e tem possibilidade maior de vendas.  Você tem mais possibilidade de passar o trabalho para frente.  Eu acho bem interessante.

P – Finalizando, Sergio, você teria alguma coisa a mais para registrar?

R – Acho que seria interessante relacionar as pessoas de quem eu curto o trabalho...

P – Ah, sim, claro.

R – Um dos artistas brasileiros que eu mais gosto é o Lenilson.  Gosto bastante também do Antonio Henrique Amaral, principalmente dos desenhos. Acho a imagética dele bem interessante. E, de fora, Picasso...  

P – A gente consegue perceber uma presença sutil de Picasso na sua produção. Você nota isso? Não uma presença a nível de influência marcante, mas talvez um certo espírito a nível da composição do espaço, talvez... Isso é visível para você,

R – As vezes sinto alguns trabalhos mais, outros menos, mas é uma coisa completamente espontânea.  Eu nem me bloqueio por causa disso.  Acho que Picasso é um artista que gosto muito e quando pinta alguma coisa relacionada com o trabalho dele, deixo rolar. E para mim, acho que ninguém faz um trabalho do nada.  Todo mundo tem uma influência durante toda a sua vida, o trabalho surge a partir daí, depois das coisas que aconteceram ou estão acontecendo paralelamente. Inclusive, às vezes sinto uma certa sintonia entre alguns artistas, independente de estilos e escolas... Mesmo esse lado que você falou, sobre o fato de vários artistas estarem querendo partir para o tridimensional... Acho que a nova geração deve estar achando que a pintura esgotou... Quer dizer, de repente pinta uma sintonia assim, e não uma coisa que foi estabelecida como a escola.  Acho que foi algo que simplesmente veio à tona.  De repente as pessoas começaram a querer partir para o tridimensional. Bom, voltando, influências estrangeiras, fora Picasso, não consigo me lembrar de nada.  Mesmo esses artistas da Transvanguarda, essas coisas não tem nenhum que me chame muita atenção, Um que eu gosto um pouco é o Dokoupil, também mais pela posição dele de não se conformar a um estilo...

P – Muito semelhante a postura dele com a sua, não é?

R – Não tanto pelo trabalho... Bom, acho que agora acabou...

P – Então, muito obrigado.